quinta-feira, dezembro 30, 2010

P.

Ela nem sabe que pode ser feliz. Ou, quem sabe, sou eu que tenho aquela ideia de felicidade que se compra nos rótulos das caixinhas de presente: belas fotos de pessoas de dentes mais brancos do que a neve. Mas ela poderia ser feliz: daquela felicidade que entorpece os sentidos e faz filhos, netos e fotos. Ela também poderia ser palavras impressas no papel: daquelas que se recitam em noites em que a lua faz olhos tristes; lágrimas, quem sabe, da solidão que aflige alguns.
Mas ela é algo que eu não posso descrever, com minhas limitações de imagens, meu deus que insiste em surgir de noite, meus medos de ser pequeno. E como descrever aquilo que é maior? Minhas palavras ajoelham-se e prestam reverência às palavras dela: "Fizemos mesa e cadeira, mesa pra sentar, cadeira pra pousarmos."

E ela deve estar agora, olhando o teto e imaginando-se presa num mundo que não ouve sua voz, não sabe seu cheiro e não entende seu fogo. Não. Não entende. Há de ser um jogo maligno: a voz que fala as palavras mágicas puxa o pé para o fundo de um poço. Ou para o buraco do coelho.

(Conselho, de formiga, humildemente: Ofereças só teu coração se o prêmio for, ao final do dia, ver um sol de caramelo. Se for somente para expurgar seus pecados ainda não cometidos, sinta-se livre para seguir o primeiro parágrafo: seja feliz...mesmo eu sabendo que há uma maldição em cantarolar os verbos infinitos, como você faz, em cada sílaba.)

E eu, com lágrimas escorrendo pelo coração, desejo que os dados não a firam e não a machuquem. Que a armadura dela seja tão grossa quanto a minha...mantendo um coração que não deve chorar, como o meu...

segunda-feira, dezembro 27, 2010

De primeira... (Questionário para quem não tem o que fazer num tempo chuvoso na praia)

Sobrinhas de 9 e 10 anos. Todo mundo merece essa experiência...

# 2011? - Já esperando 2012...
# Vida após a morte? - Não, obrigado. Estou satisfeito...
# Amor? - Invenção cortês, expandida por aquele inglês esquisito, amigo da rainha...
# Se eu não fosse eu eu seria...? - Outro.
# Se eu pudesse escolher alguém, eu seria...? - Átila, o Huno.
# Se eu pudesse viver em outro tempo, seria...? - Após a extinção da ração humana, ou antes do homem aprender a andar sobre os membros inferiores. O domesticaria para ser feliz andando de quatro e comendo Purina.
#Se eu pudesse viver em outro lugar, seria...? - Qualquer lugar que eu não pudesse encontrar ninguém parecido comigo.
# Quantos filhos você terá? - 1000, um com cada mulher que sair. Quero formar meu próprio país...
# Sua comida prefira é?... - Miojo com fandangos.
# Sua bebida favorita é?... - Aquela que eu não lembro que bebi.
# Sua banda favorita é?... - Larga, sem limite de download.
# Qual será o nome de sua esposa? - Infeliz ou como gosto de nome composto, Infelizarda...
# Qual sua religião? - Corintianismo apostólico zonalestano.
# O que você quer ser quando crescer? - Ditador ou vendedor de cachorro-quente.
# O que eu mais gosto é?... - Não gostar de nada.
# O que eu mais odeio é?... - Responder questionário...

(Nesse ponto, elas ficaram chateadas e foram brincar com o cachorro. Não eu, o de pelos...)

sábado, dezembro 25, 2010

deus

Quase quatro horas de sol, no pico, fizeram-no achar ser possível o esquecimento. Do que importa colocar o dedo na ferida? Sempre dói sempre mais em nós pois a ferida só está aberta aos nossos olhos. Sol, uma conversa sobre a infância, um panetone de chocolate. Sim, parecia plausível a ideia de uma vida sem o cinza, sem procurar a poeira debaixo do tapete, sem olhar o lado sujo das faces limpas.

Duas mergulhadas pelo escorregador na piscina e a vida abria-se: radiante, simples e completamente calculável: iria arrumar uma esposa, ainda havia tempo para ter um filho e definitivamente, compraria um terreno e, em alguns anos, teria seu próprio aconchego.

Ceiaria as festas sempre com sua família, afinal, a família deve e está pronta a perdoar e encarar tudo da mesma maneira: "É só mais uma extravagância dele". Sim, era isso que precisava. Do perdão incondicional de um mundo que já não importava tanto quanto os risos, os pássaros e a melancia fresca.
*************************************************************************************

Mas há deus. E ele é cruel. No mesmo dia, foi até a praia. Lá, viu aquilo que os seus olhos doentes buscam com avidez: a estupidez humana. O ser humano no seu mais baixo valor, procurando meramente uma forma de fornicar, como cães no cio. Carros tocando músicas de gosto duvidoso, piadas sexistas e cantadas tiradas de um biscoito chinês de má qualidade: ali, a fauna se acotovelava, em bicicletas, numa calçada, buscando avidamente uma recompensa pelas milhares de horas trabalhadas atrás de balcões, apertando parafusos, dizendo sim senhor, não senhor. Ali, a ralé se esbaldava, fazendo dívidas para serem pagas com mais suor, com mais submissão, sorridentes, como o louco que anda para a forca achando que vai passear no carrosel.

E deus dá aquele sorriso de quem sabe que a dor não é dos incautos. É dos que teimam em ver. Deus ama os cegos por uma razão: qualquer dia é um milagre.

A piscina, o filho, o sol... não nesse mundo, não com esse deus.

terça-feira, dezembro 21, 2010

De repente, sincronizadamente, eles ouvem: tic-tac, tic-tac. Também começam a sentir o cheiro do hálito amanhecido, uma mistura de vinho e pão mofado. Mas o pior é quando os olhares se cruzam. Quase estranhos, ambos se recolhem e se encolhem. Há um longo momento antes que um deles sorria, amareladamente e diga algo: "É, né". O outro, tirando a remela dos olhos completa: "Pois, é". Será a última vez que estarão próximos de uma sintonia. Ela se vira, assustada, respirando com cuidado, lentamente: "Quem é esse?" Onde está aquele homem de sorriso confiante, de cheiro de homem de verdade, de mãos fortes? Vira-se novamente a tempo de vê-lo andando para o banheiro, coçando a bunda.

Ele entra no banheiro, respirando alto e fundo: "Caralho, o que eu farei agora?". Tentou se lembrar das promessas feitas. Mas pensou que promessas de alcova tem valor limitado, temporário. Há, na verdade, um acordo de cavalheiros sobre isso: se diz o que precisa se dizer antes de começar os xingamentos mais picantes...Convenção. Ela haveria de entender e até se sentir bem, sabendo que ele se lembrara das palavras certas...

Ela se veste, correndo, culpada pela nudez. Sente um frio insuspeito, um tremor que lhe percorre o corpo: "Esse desgraçado usou camisinha?" Percorre as mãos e os olhos debaixo da cama. Lá está. Suspira, quase vitoriosa. Tenta se lembrar dos olhares que fez. Xingou-se, intimamente, pelas palavras submissas, pelo olhar de cordeiro indo ao abate, mas ele deveria saber que era um jogo. Todas fazem caras e bocas, para ajudar o desempenho do parceiro e também porque é picante...Ele iria se lembrar e até empinar o peito, imaginando que a tinha feito gemer como um trem descarrilhado.

Antes de sair do banheiro, ele pensa no que vai dizer: "Gostei de você, podemos marcar uma outra vez...", mas parecia-lhe que estava marcando para ir a um jogo de futebol ou escolher meias para o dia dos pais. Decidiu não dizer nada, só acompanharia o que ela dissesse.

Antes dele sair, ela seleciona as palavras com carinho: "Quando você quiser sair, me manda um sms". Achou meio vulgar, parecia-lhe que era uma garota de programa ou alguma apaixonada. Ele era o homem, esperaria o que ele dissesse e concordaria.

Quando ele voltou para a cama, deitou-se ao lado dela e ficaram alguns minutos só olhando o teto. Sentiu-se desconfortado, imaginou que deveria tomar uma atitude, o que era a sensação dela e também seu pensamento. O desconforto aumentava a cada segundo, o ar do quarto parecia morto; pela janela entrava um rasgo de sol intruso. As lembranças de tantas conversas, parecia-lhes agora uma dança macabra: na verdade, uma tourada. Os dias anteriores, as palavras anteriores, os beijos segundos antes do ato, pareciam a capa vermelha se agitando, eterna e sedutora. As mensagens queridas, as conversas íntimas, planavam e se agitavam aos seus olhos. Como dois touros, avançaram sobre a capa.

Agora, o toureiro fazia tic-tac e os despertava da magia. O toureiro enfiava espada por espada a cada segundo. Enfim, se levantaram sem olhar que, para trás, havia marca de sangue e suor numa arena de areia e ilusões...

My Way - Frank Sinatra



"The Old Blue Eyes"...houve um tempo em que os homens eram charmosos até sendo filhos-de-uma-puta...Rat Pack...Belos nomes para grupos que só queriam beber, cantar e conhecer todas as mulheres biblicamente...E pensar que o Sid Vicius canta essa música com desdém...sorte que ele era só um magricelo inglês branquelo e nunca foi a Vegas ou iria acordar com cimento em torno dos pés no Lago Michigan...merecidamente...

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Limpando o espelho...

Desprezamos o mundo somente porque o mundo, em geral, nos despreza. Fôssemos mais belos, mais ricos e mais interessantes, estaríamos inclusive fazendo feira beneficente aos sem-tetos.No entanto, considero também uma segunda hipótese: desprezamos o mundo pelo o quão incompreensível é os mecanismos dele. Esperamos sinceridade, independência, individualidade, boa vontade. Esperamos o mesmo que todos: a facilidade. Entendêssemos que o mundo se faz de fora e não por dentro, seríamos menos frustrados. Muitos do que reclamam do mundo o fazem simplesmente porque são diferentes demais para as grandes profissões: advogado, administrador de empresa, modelo, ator. O resto é pedreiro, cada um construindo um muro diferente, mas que serve de alicerce para essa sociedade. Fôssemos um pouco mais loiros, seriam menores as noites enfadonhas, dialogando com outros que se parecem na nossa feiúra e na nossa incapacidade de aceitar as regras do jogo. Bebemos, nos drogamos, ouvimos algo irritantemente alto ou assistimos outra coisa incompreensível para criarmos o mesmo laço que os loiros, os altos, os ricos, criam entre si: a diferença é que o laço deles leva à diversão, a um mundo menos clichê e gozo das coisas do mundo. Os nossos são como pactos entre lemingues que decidem afundar no oceano, mas de mãos dadas...

Assim que compreendemos que somos a parte bizarra da humanidade e que nossa influência deve ser mínima, e quando pública, o mais próximos dos valores "nórdicos" do que da "cozinha", entendemos que no final, mil horas de filmes românticos cobram seu preço, três mil fotos de olhares bem delineados são mais importantes, ou ao menos fazem mais sentido, do que qualquer poesia já escrita, qualquer música composta ou qualquer gesto feito com graça e harmonia. No fim, fugiremos do nosso cheiro mas não teremos ninguém para suportá-lo, ao contrário daqueles que aprenderam que a vida é um grande playground e que todos querem descer pelo escorregador, mesmo o menino supostamente "indiferente".

John Lee Hooker - Rock Me Baby



Ella me lembra que os anjos andam entre nós. Hooker, que o demônio é bem mais divertido...

sexta-feira, dezembro 17, 2010

O homem que não podia mentir


- Amanhã, você continuará me respeitando?

O jogo era o mesmo desde que Adão avistou Eva, mas subitamente as palavras entalaram em sua garganta. Olhou para aquele corpo e sentiu novamente um desejo louco, sangue correndo pela face. Era fácil. Nem precisava soar verdadeiro, quanto mais ser verdadeiro. Era uma mera convenção social. Podia dizer qualquer coisa: "Claro", que bastaria. Nos bons tempos, recitaria Keats ou Byron. Bastaria isso, para uma noite movimentada. Saciar o demônio. Calar aquela solidão inexorável, constante, já familiar, que lhe dava bom dia, todos os dias.

Podia nem dizer nada. Só olhar e mexer a cabeça. Um tique qualquer. Ela só queria saber que seria valorizada por alguns segundos, o tempo do corpo jorrar e o sono chegar. Podia ser até uma pergunta, não importava de fato: "O que você acha?". Mas nada saia de sua boca. Sentiu um peso no coração. "Ataque cardíaco...Conveniente". Mas não. Continuou respirando, ali.Rezou pelo ataque cardíaco. Sentiu suas costas suando, desesperado.

Tentou lembrar dos velhos tempos. Teria dito sem nenhuma mentira. Talvez amasse de fato. Iria sofrer depois, mas sabia que era amor. Deu um longo gole, quase terminando seu scotch de uma só vez. Ela olhava ansiosa, quase amorosa. Queria um osso, um graveto para correr atrás e depois poder amaldiçoar: "Os homens são todos iguais". Seria uma satisfação para ela poder pronunciar essa frase estalando os lábios em cada sílaba: "Iguais..."


Sentiu-se leve. Sabia que não era a amiga morte levantando-o pelo colo. Sempre imaginou que, no último segundo, alguma entidade apareceria e simplesmente balançaria a cabeça, decepcionada. Era simplesmente o fato de não querer mentir. Querer dizer a mais crua verdade, e olhar bem fundo naqueles belos olhos: "Não. Não vou te respeitar." Ela ficou pálida. Olhou para ele como se olhasse o fundo de um poço sem fundo. Como se olhasse a escuridão. Ela se afastou, rapidamente. Ele terminou a bebida. Pagou sua conta.

No caminho de casa, dirigindo e ouvindo Ella desejando-lhe um arco-íris, ainda parou para ver algumas luzes que enfeitavam uma árvore distante. Sentiu-se como se o mundo tivesse sumido e fosse só ele, Ella e uma solidão que agora lhe acariciava os cabelos e dizia com voz aveludada: "Bem-vindo, de volta, meu eterno amor".Sentiu-se abraçado e sorriu, pela primeira vez desde sempre.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Noite Feliz


As luzes piscavam em cores hipnotizantes cercando árvores douradas. Ouvia risos vindo de todos os lados; famílias apontando enfeites sobre postes, em vitrines, bonecos de neve de plástico com cachecóis. Ouvia uma música que começou a lhe dar dor de cabeça; “Hoje a noite é bela...”. Ouvia numa espécie de transe, como se todo o mundo fosse só essa música. Precisou correr antes de vomitar. Mas essa corrida, desequilibrada e patética, subitamente tirou todo o álcool de seu cérebro. Lembrou. Os olhos que nunca o olhavam com desprezo. As mãos macias, muitas vezes fazendo carícias em sua barba. Seu peso de papel, pulando em seu colo. Lembrou. Os vizinhos apontavam para ele na rua e os moleques faziam gestos de cópula. A maldita. Outro dia apareceu com vestido novo. Não tinha como. Não tinham dinheiro, ele estava desempregado há tempos e ela era desocupada demais para trabalhar. Alguém trocou sexo fácil por aquele pedaço de pano. Lembrou: “Papai, o Natal está chegando. O que Papai Noel irá trazer?”. Lembrou: “Bêbado inútil. Uma hora eu vou para a estrada e sumo. Meu corpo ainda está firme”.

De longe, viu uma luz na janela. Estavam acordadas. Rezou para ser no singular. Tinha desprezo suficiente para dar neste e nos próximos Natais. Palavras bem escolhidas, polidas no coração azedo, limpas na ponta da língua, indo e vindo, esperando a chance de sair. Enfiou as mãos no bolso, esperando o seu milagre: quem sabe sobrou umas moedas, podia ir até a mercearia e comprar um doce. Achou um cigarro rasgado, só o filtro. Se pudesse rezar, talvez não rezasse, mas ergueria os punhos e gritaria todo o ódio de sua pequenez. Queria ter um deus para voltar a face. Queria ter um deus para se sentir injustiçado, escolhido, ao menos odiado por algo que não servisse de risos na vizinhança.

Quando abriu a porta viu as duas sentadas no sofá. Uma sorriu e correu para abraçá-lo. Antes, no entanto, ouviu as palavras de gilete da outra: “Vai esquentar a cama, corno”. Súbito, uma epifania. Colocou a mão carinhosamente no peito da filhinha e pediu carinhosamente para que ela fosse para a cama e se escondesse debaixo dos lençóis. Esperou a menina fechar a porta. Tirou o cinto puído em volta das calças sujas e começou a bater na mulher. Esta gritava, gemia e torcia-se. Deu até cansar. Sentou-se no sofá e ficou olhando pela janela as famílias voltando das compras. Agradeceu a Deus pelo dia. Adormeceu sentado.

Do quarto, a menina ouvia os gritos da mãe, desesperados. Pediu para Papai Noel para que não apanhasse também. Algum tempo depois, o silêncio. Ficou de olho na porta, coração disparado. Quando notou que o silêncio durava muito tempo, juntou as mãos, ajoelhou-se e murmurou baixinho: “Obrigada, Papai Noel”. E dormiu chupando o dedo.