sábado, maio 26, 2012

NOITE SEM FIM

“Fica conosco, porque já é tarde, e já declinou o dia”. 
(Lucas 24:29)

Las estrellas entonces ennegrecen.
Han vuelto al dardo insomne
a la noche perfecta de su aljaba.
(Muerte sin fin, José Gorostiza)

Súbito, dou-me conta
de que estou sozinho.
Sei-me entre outros,
em plena mulidão,
mas me passa um arrepio,
um arrependimento, um não-sei,
e em ondas de silêncio,
naufrago-me em mim mesmo.

Não mais reconheço
aqueles que foram expulsos
comigo da mater-terra,
e arrastaram-se, abandonados,
pelas trilhas inóspitas,
nunca antes caminhadas.

Não são mais familiares,
os olhares, que como o meu,
buscaram na primeira madrugada,
o conforto no calor alheio.

Perseveramos, no entanto,
e cantamos a primeira voz:
ganhamos nomes, demos nomes,
afastamos as trevas
pelo verbo-luz.

Onde estão todos?
Quando nos perdemos?
Quem disse a palavra 
que criou a Lâmina
e nos cindiu, para sempre?

Por que nada vi?
Engatinhei, imerso
em meu imenso vazio,
sedento de bastar-me...

Quando levantei, agora,
os olhos, não mais te vi.
Não mais os vi.
Não mais me vi.
E tudo que soa 
é o arrastar familiar
da noite sem fim,
que, se começou no outro,
anoiteceu em mim.

terça-feira, maio 22, 2012

Sonetinho de amor

Estávamos ambos postos em sossego;
afastados em direção oposta ao perigo;
sabíamos o duro e sabíamos o meigo:
desconhecíamos o mesmo inimigo.

De corpos diametralmente isolados,
atraídos em imã da insensatez,
fomos lado a lado deslocados:
perdemo-nos de uma só vez.

E dizem, aqueles que nunca amaram,
que à força do mundo se opõe a humana!
Não tenho notícias dos que triunfaram...

Só sei que tirados de algum nirvana,
os olhos em encontros se iluminaram,
e justificaram a trajetória mundana.





domingo, maio 20, 2012

TEMPOS





Antes do mar, da Terra e Céu que os cobre


Não tinha mais que um rosto a Natureza:

Este era o Caos, massa indigesta, rude

E consistente só num peso inerte.

(Metamorfoses, de Ovídio)



Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se  anos.

(Uma Galinha, de Clarice  Lispector)




Há tempos, e numerá-los não se poderia,
as contas se inverteram: agora é sempre 
um a menos e não a mais.

Há-de zerar-se, sempre.

Noto que os sorrisos sumiram,
ou sempre que surgem
estou olhando na direção errada.

Há-de amargurar-se, sempre.

Algo dentro de mim se quebrou,
da estirpe divina ou sangue da terra,
já não sei-me em mim mesmo.

Há-de fugir-se, sempre.

E os amigos, que são deles?
Quando a estrada fez a curva
que os tirou da minha vista ansiosa?

Há-de perder-se, sempre.

E quando o leite azedou?
E as plantas secaram?
E as crianças cresceram?

Há-de dormir-se, sempre.

Dizer o futuro é, agora,
ao contrário de há muito,
ter a certeza.

Há-de findar-se, sempre.

quinta-feira, abril 12, 2012

  Queria nunca mais escrever nada que tivesse um "eu". Mas também não tenho a técnica refinada o bastante, nem o temperamento generoso, para narrar algo como se fosse um rapsodo. Enfim, o que faço com as palavras ultimamente é rodá-las, de um lado ao outro do cérebro, esperando ouvi-las ou vê-las. Nesse exercício, meu corpo ainda se torna menos diapasão e mais o muro seco e sem reboco, a cruzar de ponta a ponta uma rua. Sadisticamente, ergo esse muro-eu quase alto o suficiente para tampar qualquer visão, deixando uma fresta em que se vislumbre algo parecido com uma luz. Não se pode ver nada, no entanto, só o que parece algo colorido e vivo. Alguns chamarão de pré-poesia. Eu chamarei de epifania cíclica do fracasso deste eu que insiste em querer ser o filtro de si mesmo. Por isso, agora faço puro escarnio deste eu que vos fala. Assim, quem sabe, me encontro novamente.

terça-feira, abril 10, 2012

Abraços

  Chegará o dia dos rugidos e seremos livres. Não mais contarão  quantas vezes fizemos o outro sorrir, nem quantas vezes nos ajoelhamos para o idolatrar. Cessarão os movimentos de mãos em direção a mãos, de pés tentando acompanhar pés, de quadris se oferecendo a outros quadris. Jogar-se-á pelas janelas, em júbilo infernal, as listas com telefones de pessoas que nunca se viram; os bilhetes de espera por alguém que nunca virá e, quando vêm, não sabemos seu rosto; as fotos de extensões genéticas que se afastaram sem olhar para trás.

A mentira que se criou, quando o fraco temeu o forte, pela palavra e na palavra, será finalmente calada pelo rugido. Não mais olharemos aos céus com lágrimas beatas sofridas, nem louvaremos pela fraca condição humana. Acenderemos um cigarro, sim, mil cigarros, pela morte sem culpa e sem remorsos que construiremos graças ao calor do dia. Nus, rolaremos como animais uns sobre os outros, despejando litros de novos maquinários fecundados em fornos de produção baratos, ou como se diz antes do rugido, no ventre.

Não haverá mais longas palavras, nem longas frases, nem ideias que se perdem ao vento, entre um som que emana de cada célula animal e a vontade sem limites e sem razão do amanhã. Devoraremos uns aos outros, guardando o máximo de energia para algo que nem mais se nomeia: apocalipse, falta de recursos naturais, estratégia de sobrevivência? Nomes para que e quem? Ouvir-se-á, no escuro, o rangir dos cães fugindo de cães maiores ainda.

E não mais haverá um Filho, nem um Príncipe. Quem sabe, havendo Deus, e Ele ainda querendo aproveitar da humanidade, não haverá alguma bactéria que deixará sobrar apenas alguns, por algum critério misterioso, mas que ao fim e ao cabo, será o dia um antes do final, que antecederá o dia um antes de outro final, num ciclo infindável de ruídos e parábolas; de dentes afiados e sorrisos polidos; de mãos arrancando membros e apertos de mãos de pais e filhos?

O rugido precede ao abraço que precede ao rugido.

domingo, março 04, 2012

Aula

  Ao amanhecer, debruçado na janela, sei que não há campos pela frente. Tudo que vejo é um isolamento conveniente, que as imagens de centenas de edificações distantes, de cores e tamanhos diferentes, me causam. É bom ser distante e ainda melhor ser ínfimo. Pena que descobrimos tarde demais, quando já colocamos nossa cabeça para de fora da janela e gritamos desesperadamente nosso nome, como um antigo e divino troféu. Nosso nome, que achamos que diz mais que qualquer outro nome, só não é mais patético do que tal ideia. Daqui, isolado nesse prédio e invisível para os passantes lá embaixo, sei que não há nada pela frente, além dos minutos que faltam para que se finde a jornada diária de pão e mentira. Antes disso, me volta para uma classe, cheia de olhares que não me veem e não mais brilham, e, num segundo ínfimo, finjo que partilhamos de alguma luz sobre esse absurdo que séculos ilustraram com o nome de vida.

  Durante esses breves segundos, rompidos com o tempo cronológico, imagino-me endireitando minha coluna, tirando o pó de sobre meus ombros caídos, colocando os óculos de lentes baças de lado, e uma insuspeita voz permite-me banir a mediocridade do mundo. É uma sensação elétrica, que irrompe por todo o recinto. De súbito, os outros corpos que ali jaziam recuperam uma energia há muito escondida sob o véu do papel social comprado em bancas de revista, sob o olhar de um deus que há muito nem se lembra de sua criação, escondida sob a desaprovação diária de outros corpos que lutam para existir sobre outros corpos. Já não ando, marcho decidido por entre carteiras que derrubo a pontapés violentos, enquanto simplesmente palavras se formam com a força de um trovão primitivo: poderia ser desde o primeiro discurso contra um predador maior, quanto a manifestação da vitória ao dominar o fogo. Não importa. O que digo, com toda a força que um pulmão decadente e corroído pela nicotina dos anos não pode aprisionar, ilumina aquele momento.

  Em breves segundos, passamos a reconhecer em cada um o inimigo e o amante; o assassino e o pai; o silêncio e o diálogo.Não somos mais um mero papel e um mero interposto entre o nascer e o morrer. Somos um fogo com a força de destruir e construir.Podemos incendiar Roma e construir Paris. Podemos escurecer o dia e iluminar a noite. Minha pele já não mais me suporta. Tratada com o desprezo do colchão bolorento e as carícias compradas por garrafa de álcool, rompe-se para deixar um novo ser surgir. Intocado pelo desprezo, armado com a pureza do novo,  não há mais necessidade de nenhuma roupa, costurada pela técnica adquirida pela ganância e astúcia, escondê-la. Logo todos são novos ali também e são o irmão e o andarilho; o generoso e o ladrão. Sentimo-nos prontos para recomeçar e de fato, existir.

 Mas toca um alarme inaudível, avisando que o tempo é findo. Abaixo meus olhos para a mesa e digo, com uma voz saída de um corpo morto e desabitado de qualquer resquício de heroísmo ou força que é necessário ler uma página qualquer de um texto qualquer. E todos fingem ouvir e seguem arrastando o mundo sob sua poeira.

terça-feira, dezembro 27, 2011

Novo livro de filosofia

   Ainda tenho olhos, mesmo acanhados por detrás de óculos cada vez mais grossos. Ainda tenho a pele, cada vez menos sensível ao toque do outro, como se surgisse por debaixo escamas. Ainda respiro, de quando em quando, com um pouco mais de esforço do que o mecânico de enviar algum oxigênio para dentro do corpo que me move. Move, com cada vez menos empatia e menos sangue: as pernas preferem, por hábito e por filosofia recém-descoberta, ficar prostradas em posição de 3:50. Sinto, não saberia mais dizer o porquê, como se fosse um mero mecanismo de carne cada vez mais flácida e vontade mais fleumática; sinto como se tivesse me entregado sem resistir. Mas isso é de outro livro, não o novo.

 Sei, mais por inércia do que por cognição voluntária, do mundo em geral. Ainda sinto o gosto de cerveja, mas de quando em quando: não se deve relaxar o espírito, diz meu novo livro de filosofia, ainda não escrito por ninguém, mas que vou reconhecendo no olhar dos outros. Não se deve relaxar, pois haverá o dia do algo. Nesse, tenho minhas próprias imagens e minha própria trilha sonora. Não me entrego mais: meu livro, lido no olhar dos outros, diz que devemos nos preservar, moldar nossos sorrisos no ângulo exato que construa um agudo com o sorriso do homem à direita, sem deixar de fazer um semi-círculo com os cílios da mulher logo a frente. É difícil essa nova filosofia, e por vezes quase abri mão dela. Mas resisto.

 Outros tempos, precisava de razões, motivos, motivações para me movimentar. Aprendi, na sabedoria dos apertos de mãos, dos abraços em reuniões, das vozes que soam num misto de alegria e consternação (essa voz eu treino sozinho, durante o banho, mas confesso que ainda não dominei tal técnica), que as palavras "missão", "tática empresarial", "fator de propaganda", e outras expressões que soam parecidas, são ditas nas mesmas frases e pelas mesmas bocas- donas das mãos que apertam com força e alegria - que nos dizem que estamos mais magros, mais jovens, mais alegres. A minha nova filosofia contraria a lógica biológica, social, histórica, mas ao menos diminuí a quantidade de sobrancelhas que se levantavam em minha direção. O novo livro garante minha subsistência e parece fazer a todos extremamente certos e seguros de si, até porque só existe uma ideia, um objetivo: a construção da equipe. Tenho quase certeza de que a equipe é meu porto seguro, e ganhamos todos: eles me ajudam e eu os ajudo.

 O vocabulário desse novo livro, que tenho me esforçado para entender, é limitado, mas cada palavra serve exatamente igual as outras: ocupam um espaço importante, de tempo e de articulação de ideias, sem o que, teríamos que voltar ao tempo de ter que ver as coisas de fato e dizer, absurdo, as coisas como elas são. E mais importante: não é o significado que importa. É o tom e a forma como ela é dita. Um exemplo: "Nossos esforços devem ser no sentido de manter a coesão social e garantir que nossas ideias sejam compreendidas e satisfaçam a todos, mantendo o stablishment e o status quo, dentro da lógica das múltiplas inteligências ". Escrito, não parece grande coisa. Entre lágrimas, ressaltando os pronomes pessoais possessivos(nossos, nossas), entrelaçando as mãos como se significasse a tal união, causa um grande efeito. Gosto desse novo livro. Já tentei fazer o mesmo dizendo para um grande público a frase seguinte e causou grande emoção, lembrando da regra do uso generoso da ideia de coletividade, de objetivos, de usar expressões estrangeiras, de adjetivos : "Nossa pizza de muzzarela com aliche, é prova do nosso esforço e nossa capacidade digestiva excepcionalmente treinada desde o paleolítico".

  Às vezes, sonho que o dia do algo não será a mera repetição do dia anterior, como os olhares insistem em me tranquilizar. Sonho que haverá um grito primordial, vindo do grupo que se esquentava num clichê de lata de ferro, debaixo de uma ponte, e que eles, tal qual os primatas de 2001 de Kubrick, erguerão seus instrumentos e começarão uma onde de violência e destruição, que, como uma gripe, se alastrará. Será a ideia da equipe difundida ao limite. Coerente.E haverá uma trilha sonora distante, soando abafada, debaixo da cama e será eu mesmo, rindo do absurdo que toda a filosofia do mundo ajudou a construir, ajudada com afinco pelos nossos corpos que, de vez em quando, ainda tentavam nos dizer e nos mostrar as coisas que cada vez menos queríamos e podíamos ver.

sábado, agosto 13, 2011

RESPOSTAS

  Dançar tango em Paris.
  Comer ravióli em Lisboa,
  Jogar rosas no Nilo,
  sentar em frente ao Coliseu.

 Por que meus demônios são noturnos?
 Por que a insatisfação esgueira-se no silêncio?
 Por que o pulsar do coração é insistente?
 Por que criamos deuses se somos pó?

 Andar de mãos dadas em público.
 Escrever sonetos alexandrinos.
 Amar com palavras de conforto.
 Amar com gestos de símio.

 Quando será que nada mais será sensação?
 Quando o breu será meu irmão?
 Quando os passos irão para a distância?
 Quando nunca mais haverá verão?

 Ter conta em banco exclusivo.
 Falar idiomas com sorriso.
 Usar os pronomes com exatidão.
 Lembrar de datas particulares.

 Quem enxerga o que eu não sou?
 Quem iniciou a mentira?
 Quem revelou a verdade?
 Quem abriu a boca e se comunicou?

 Calcular os passos com precisão.
 Almoçar com máscara e não sujar de macarrão.
 Escolher nomes para os que virão.
 Ler a mente alheia e responder de prontidão.

 O que justifica a lua?
 O que se faz em nome do infinito?
 O que é a morte?
 O que sou?

 E tudo que ela me pede
 é que eu acaricie suas costas,
 antes de dormir sorrindo.

 E responde todas as perguntas,
 mesmo as que ainda não fiz.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Paisagem

    Sentado em uma mesa de bar,
    contando minhas pílulas da felicidade,
    sabendo de antemão,
    que as horas se passam em vão,
    que os risos movidos pelo álcool,
    e as mãos que se entrelaçam,
    logo irão acordar para o dia,
    e para a vida que chamamos de real.

    Saio em direção a lugar nenhum,
    pois aonde vá sempre encontrarei,
    um espelho que possa reconhecer,
    a imagem que criei de mim,
    forjado em mentiras vaidosas,
    e palavras que encontro,
    quando sinto meu ventre rastejar pelo chão.

   Amanhã ou depois,
   e ainda depois,
   e mais um pouco (ou muito, sabe-se lá)
   usarei as palavras que venho treinando,
   como um cão que recebe seu osso após um salto.
  Encontro-as entre o intervalo do sorriso sem sentido,
  e dos cálculos mentais de quanto me renderão.

 Aprendi com as mãos calejadas e os pés em sangue,
 que o que sou não importa.
 O quanto sonhei e o quanto quis que tudo
  fosse feito entre soluços de um coração apaixonado,
  pelo Outro, por algo que fizesse mais sentido,
  do que a propaganda que passa na televisão,
  nesse exato momento.

  Bonitos. Sorridentes. Felizes?
  E o que é a felicidade, afinal?
  Eu, que li e leio páginas amareladas de sons distantes,
  que já rezei tantos nomes,
  e comprei alguns cristais,
  e tentei de todas as formas entender a roda do mundo,
  não saberia responder qual a equivalência entre o que se chama de felicidade,
  e um olhar que honestamente tente me confortar.

  Olho o relógio tentando segurar os ponteiros de forma mental,
  quem sabe? roubar do tempo e do mundo o que resta:
  essa mesa, essas mãos entrelaçadas.
  Mas o ponteiro é como o arauto prometido,
  disfarçado e cantando entre diversas religiões,
  que nunca prometeram arrancar de nós,
  o vício pelas lágrimas alheias,
  e a satisfação em sentir que os outros sçao outros.

  Mas o amanhã é logo ali,
 e entre a dissimulação e a sinceridade,
 sei que agrada a todos a segunda:
 somos vaidosos de sentirmos que
 outros se esforçam para nos enganar,
 já que afinal, não entenderíamos ninguém mesmo,
 se usassem de palavras que significassem a verdade.

 Verdade? enquanto a minha paisagem são meus pés,
  contorcendo-se para cavar a própria cova,
  outros olham para si,
  satisfeitos de saberem que,
  depois de amanhã,
  o que restará é o nada e que somos todos
  seu pai, sua mãe e seu filho.